Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de ago de 2015

Veneno - Último capítulo

MARY
“Fred está morto também.”
- Paul diz.
“Pelo visto a vadia da Cassandra era exatamente quem eu pensava que era.”

Continuo calada.
Meus olhos estão fixos nele e eu tenho medo de piscar e perder algum movimento.

“Escuta, você gosta de negociar, não é?”
- Ele diz.
“O carro blindado que eu pedi vai estar aqui daqui a pouco. Nós podemos fechar algum tipo de acordo de paz, sabe? Eu não toco em você ou no seu irmão. Você me deixa ir embora. A polícia vai fornecer atendimento médico para ele e eu consigo fugir. Simples. Ninguém mais precisa morrer.”

Permaneço quieta.
Ele se aproxima, um passo de cada vez, atento a cada reação minha.

“Vamos largar as armas, sim?” - Ele sugere. - “Já chega. Acho que pelo menos nisso nós dois concordamos.”

Ele põe sua arma no chão.
A perspectiva de um ponto final é tentadora demais para ser ignorada. Durante todos esses dias eu busquei um acordo com Paul. Ele esteve irredutível até aqui. É como se um peso fosse tirado de mim...
Então eu vejo, numa fração de segundo, a protuberância suave por baixo da camisa de Paul, e descubro que não, ainda não acabou.
Ele está mentindo.
Não há um acordo.
Ele sabe que depende de mim, na condição de refém, para sair vivo daqui.

Minha mão direita, a que agarra a arma com força, move-se de volta ao seu lugar original, e meu dedo aperta o gatilho.
Três vezes.
É como se eu necessitasse ter certeza de que ele realmente está morto.

Largo o revólver como se ele queimasse.
A casa é invadida, instantaneamente, pelos atiradores, que se espalham por todos os cômodos. A mansão, que a um minuto atrás era tão silenciosa, com somente as minhas vozes e as de Paul ecoando pelas paredes, vira um redemoinho de barulho, numa mistura de timbres diferentes.
Me deixo desabar no tapete, desejando mergulhar para o sono.
Penso que deveria ver Jeff, avisar que ele precisa de um médico, que ele está morrendo, mas não tenho ânimo suficiente, nem para isso, nem para nenhuma outra coisa.
Mãos desconhecidas me apertam e me escoltam para fora, onde os gritos e vivas atingem os meus ouvidos. As pessoas estão me olhando como se eu acabasse de fazer um ato nobre, mas não me sinto uma heroína. Eles também não achariam isso de mim, se tivessem enxergado meu passado.
Passado esse que sempre tentei fingir que não existia, como se aquela vida ilusória pudesse apagar, de alguma forma, o mundo real.
É como Jeff disse, o meu pai nos fez assassinos.
Não há nada nobre num adjetivo como esse.

FIM